O meu Conto de Fadas




Samantha Jensen sempre sonhou com um romance de conto de fadas, mas sua vida estava mais para patinho feio do que para cisne. Mas a vida da editora de romances muda quando ela conhece o irmão da melhor amiga em um baile de máscaras. Zachary Walton está de volta depois de uma temporada no Reino Unido, fica encantado por Sam e está disposto a dar tudo que ela sonhou, incluindo seu final feliz.

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Capítulo 1
Samantha

- Sam, desce daí, você vai cair – diz Avery, minha melhor amiga. Estamos preparando sua festa de aniversário e esta faixa é o último toque. Ela insistiu em um baile de conto de fadas e o salão inteiro está revestido de tecidos e elementos dourados e com a cara da realeza, além de muitos, muitos detalhes de vermelho com infinitos corações e flores delicadas.

Com o aniversário dela muito próximo ao dia dos namorados, minha amiga se inspirou no seu lado romântico e providenciou uma festa em homenagem a data.

Ela é rica, malditamente rica, a ponto de ter uma sala enorme em Nova York que pode virar um salão de baile. Talvez dez apartamentos do tamanho do meu coubessem nessa sala. Mesmo assim, Avery decidiu que em vez de contratar alguém para organizar essa festa, ela optou pelo faça-você-mesmo e está me deixando louca faz algumas semanas.

Consegui, à custa de muito esforço, obrigá-la a contratar um buffet e alguma ajuda com o serviço. Ela nunca percebe, mas essas festas que ela acha pequena, tem sempre mais de 50 convidados e muito estresse por parte dela e por meu lado, já que Avery tem muito problema em tomar decisões.

Um decorador fez a maior parte, mas agora, a poucas horas da festa, Avery quer uma mudança ou outra e quero ajudá-la. É por isso que eu estou em cima dessa escada me contorcendo e tentando prender esse maldito tecido em uma das paredes.

E agora é pessoal, e eu não vou desistir.

- Estou quase lá! Mais alguns centímetros e eu consigo... eu... ah...! – Grito em câmera lenta sentindo o chão se aproximar com velocidade.

Eu não deveria ter tentado fazer isso sozinha em uma escada tão alta. Sinto minha vida passado pelos meus olhos enquanto só consigo imaginar que merda eu tinha na cabeça quando eu poderia ter terceirizado isso também.

Eu não quero morrer decorando uma festa. Quero que as pessoas não me sacaneiem no meu funeral. Quebrar alguns ossos podem doer, penso apertando os olhos com força com medo da batida, mas nunca chego no chão.

Um par de braços largos me seguram e evitam que eu caia no chão. E então estou congelada entre o que estou vendo agora e a experiência de “quase morte”.

“Que porra...”, penso enquanto levanto os olhos e encontro os mais belos pares de olhos que eu já vi, castanhos meio esverdeados com um toque de dourado ao redor.

Bem, não são só os olhos... todo o resto de até onde eu estou vendo também vale muito a pena ser olhado. Ele é alto, o cabelo escuro um pequeno ondulado como se fosse rebelde demais para estar penteado todo o tempo. Tem o rosto forte, marcado e o corpo que deveria ser proibido. Através da jaqueta de couro, consigo ver seus músculos e só consigo imaginar de onde ele saiu para me salvar.

- Tudo bem? – o desconhecido me pergunta, me colocando com cuidado no chão e me separando de seu abraço.

Eu me sinto deslizar por aquele corpo musculoso e só posso estar delirando. A verdade é que eu caí e bati a cabeça com força. Homens como estes não surgem do nada.

Eu estou em choque?

FALE ALGUMA COISA, SAMANTHA!

- Zach!!! Que bom que você conseguiu vir! – diz Avery correndo para o nosso lado.

Eu encaro a cena e ainda não consegui responder nada, só olhando entre Avery e Zach. Ele me olha engraçado, mas não consigo juntar os fatos na minha cabeça. Quando o homem moreno olha para minha amiga e eu vejo a semelhança entre eles é que minha ficha começa a cair.  O mesmo castanho quase preto e o maxilar proeminente como se estivessem encarando o mundo e dizendo o quão importante eram. Zach, o irmão britânico?

- Sua amiga não parece estar bem – ele diz para Avery enquanto me olha com o canto dos olhos. Eu percebo que estou congelada desde o momento que coloquei os olhos em Zach. Que diabos está acontecendo?

- Como está Samantha? a queda ia ser feia se o meu irmão não conseguisse pegar você no ar.
- Eu.. eu es... estou bem – digo soltando o ar nervosa – estou bem, muito obrigada, Zach.

- É sempre desastrada assim?

- Estava tentando colocar a faixa e me desequilibrei – digo apontando para o enorme tecido dourado e sinto meu rosto aquecer de vergonha – muito obrigada novamente, preciso... preciso... pegar algumas coisas ali... - digo virando as costas e sumindo da visão de ambos.

Avery volta a abraçar o irmão e eu preciso respirar. Meu anjo da guarda é o irmão de Avery. O irmão que não mora em Nova York tem pelo menos cinco anos e que eu nunca vi.

Sinto seu olhar em minhas costas enquanto caminho para fora da sala.

Entro no banheiro tentando me acalmar e olho profundamente para a minha imagem. Suja, suada, com meus cabelos castanho claro amarrados em um coque sem jeito. Ok... nem um pouco atraente e na frente do homem mais bonito que eu já vi na vida. Eu tiro meus óculos e limpo as lentes enquanto penso sobre o que acabou de acontecer.

O que diabos está acontecendo comigo?

Será que o tanto de livros românticos que eu preciso ler para o trabalho finalmente fizeram efeito? Nunca tive uma reação tão forte com alguém como tive com ele. É como se um choque tivesse atravessado todo o meu corpo e de repente eu soubesse que nada mais seria como antes.

Só me sinto diferente.

Eu suspiro e olho o relógio do meu pulso. Faltam três horas para a festa começar e o maquiador e cabeleireiro que Avery contratou deve chegar aqui 15 minutos. Minhas coisas estão no quarto de hospedes e hesito em passar pela sala e encontrar minha amiga e Zach conversando.
Droga, seu sempre passo esses tipos de vergonha.

Será que um dia eu vou ser atraente para alguém?

A coisa toda começou cedo. Aos 15 anos todas as minhas amigas tinham namorados e eu era a colega de todos. Eu jogava vídeo game com os meninos, eu não os beijava. Me mantive virgem e nunca beijei ninguém até o fim do colégio. Inclusive fui para a formatura com um grupo só de casais e eu, fingindo que estávamos todos bem, mas sabendo no fundo que ninguém ia dançar uma música lenta comigo.

Então chegou à faculdade e a NYU e onsegui finalmente conversar com um cara. Eles eram perdedores, eu sabia no fundo, mas se eles queriam me usar, também queria fazer o mesmo.  Perdi minha virgindade com Derek, um cara apressado que saiu comigo duas vezes antes de me levar para seu apartamento. Foi uma merda e eu não entendi a graça de fazer sexo. Tentei com Derek novamente, e depois com Steven, igualmente sem graça, e com John, com quem as coisas chegaram perto do bom e muito longe do ótimo.

Dormir até tarde, comer um sorvete, tomar café, ouvir uma boa música. Tinha várias coisas na lista de “coisas melhores que sexo”, para horror de Avery. Ela já me falou um milhão de vezes que eu só não encontrei o cara certo, mas eu tenho minhas dúvidas.

Tinha inveja mesmo é de relacionamentos. Amo comédias românticas, contos de fadas, livros eróticos – esses eu amo tanto que comecei a trabalhar com eles – e culpo tudo isso pela minha expectativa irreal de um relacionamento. Um homem maravilhoso, leal e bom não vai aparecer do nada e me segurar em seu colo e me proteger do mundo.

Bem, Zach parece preencher todos os requisitos.

Pare de pensar em Zach, brigo comigo mesma.

Pessoas não são perfeitas, mas cada namoro, casamento ou bebê que minhas amigas de escola e faculdade tem, alimentam mais essa inveja que eu sinto de não ter ninguém para mim. Quero ter alguém, eu quero ser atraente e desejada.

E suada e descabelada não é uma opção.

Eu saio do banheiro e caminho até a sala vendo que nem Avery e nem Zach estão lá. Subo rapidamente e tomo um banho rápido para esperar a equipe contratada para nos arrumar. Estou secando meu cabelo quando Avery entra no quarto sorrindo.

- Zach vai ficar para festa, não esperava ele!

- Seu irmão está de visita?

- Ele voltou definitivamente. Está trabalhando com um amigo. Já tem duas semanas que ele está na cidade e não se dignou a falar comigo, acredita? Ele passou na casa dos nossos pais, mas nem um telefonema! É um irmão horroroso.

- E ocupado, não?

- Muito! Ele desenvolve softwares e agora está com esse amigo do mercado financeiro.

- Então não é algo pessoal.

- Não, mas as vezes eu o acho muito solitário, sabe? Ele nunca namora, nunca apresenta uma garota.
- E se ele for gay?

- Ele também não apresenta ninguém do outro sexo. Só se ele for assexuado... já ouvi falar de alguns, inclusive vi um documentário.

- Avery!... – Grito chamando sua atenção. Ela tem um talento para divagar e esse seria mais um desses momentos - Isso não significa que ele não tem relacionamentos. Talvez ele só não queria a família no meio.

- Sei que não! – ela diz e se senta na cama me olhando – mas eu queria que ele fosse feliz, sabe? Com ele mais perto, me preocupo mais. É bom ele participar da festa.

- Você está dando uma festa de dia dos namorados, amiga. Algo vai acontecer, eu aposto – digo estendendo a mão para ela – ele tem fantasia?

- Ele conseguiu arranjar, está no outro quarto e vai se trocar mais para perto do horário do início da festa– ela diz quando ouvimos o interfone – enquanto isso, nós mulheres, precisamos nos arrumar com muitas horas de antecedência. Eu aposto que ele só vai tomar um banho e se trocar dez minutos!

Eu rio enquanto Avery vai até a porta recepcionar a equipe e os coloca em seu quarto. Duas horas depois, eu não consigo lidar com o que estou vendo no espelho enquanto espero Avery terminar de se arrumar em seu quarto. Meu vestido dourado era o melhor que minha amiga poderia ter me dado.

Eu não tenho dinheiro como o resto das pessoas dessa festa, e nunca conseguiria uma fantasia tão linda como essa. Me olho para o espelho maravilhada pelo trabalho da maquiadora e cabeleireira que ela contratou e a combinação de brocados e detalhes brilhantes.

Era um vestido de época em toda a sua forma. Um corpete um pouco apertado demais, que deixam meus seios de um jeito que eu nunca tinha visto antes, todo trançado, terminando em uma cintura império. O coque alto com alguns fios soltos ao redor do meu rosto criava um contraste bonito entre minha pele muito clara e os cabelos castanhos. Avery era minha fada-madrinha.

Eu me sentia bonita pela primeira vez em muito tempo com aquela homenagem em vestido a era regencial. Avery amava Jane Austen, Elizabeth Gaskell, irmãs Brontë e tudo o mais e por isso a escolha do tema da festa. Foi assim que nos conhecemos, animadas durante a faculdade de literatura.

Uma das primeiras coisas que ela me falou foi que o irmão morava no Reino Unido e sempre que podia, dava uma escapada para o Mayfair. Eu ria achando que era brincadeira, ninguém passava um final de semana no UK e voltava, mas bem... Avery Walton, filha de um dos investidores mais conhecidos de Nova York podia.

A festa era um baile regencial de máscaras. A minha combina com meu vestido dourado, sendo de um material delicado, mas que cobria meu rosto sem revelar muito da minha identidade. A maquiadora fez um trabalho maravilhoso já que meus lábios pareciam cheios, quase... sensuais, em um vermelho vivo que nada tinha a ver com a roupa, mas que me deixava linda.

Estava colocando minha máscara quando Avery entrou no quarto usando um vestido escarlate e me olhou de cima abaixo dizendo:

- Você está linda, amiga!

- Você também! – digo para ela com sinceridade. Podia matar por seios tão grandes quanto os de Avery – sua festa já deve estar começando.

- Vou esperar algumas pessoas chegarem para descer. Eu quero ser anunciada.

- Está de sacanagem? – ri – isso é meio ridículo.

- Mas é o que faziam nos bailes! – ela ri se ajeitando e com ar solene diz – Senhorita Avery Anabelle Walton, marquesa de Lothian.

- Esse título é verdadeiro ou falso, Avery? – Pergunto curiosa.

- Eu não tenho, mas acredito que está na família. Temos muitos parentes escoceses.

- Como nós terminamos amigas, Avery? – digo rindo – você é rica demais para respeitar o tanto de macarrão instantâneo que eu como no meu pequeno apartamento.

- Primeiro, macarrão instantâneo não é saudável e você deveria parar. E dois, não aguento essa gente rica mimada que cresceu comigo. Minha família pode ter castelos escoceses, mas somos gente simples.

- Lembro de quão simples pareceu esse apartamento enorme na primeira vez que vim almoçar aqui com você.

- Ah... – ela diz se aproximando e me abraçando – sou uma pessoa ótima, papai não queria filhos mimados. A nobreza da família era por parte de mãe, papai deve ter comido tanto macarrão instantâneo quanto você.

- Selfies? – digo pegando meu celular. Estava louca para registrar esse momento em que estava me achando lindíssima.

- Deixa eu colocar minha máscara – ela diz se aproximando da cama onde deixou o objeto – pronta!
Eu olho para nossa foto e sorrio, postando no Instagram. Estamos lindas e felizes e a noite mal começou.