Contrato de Amor


Casamento de conveniência? Charlie Smith e Nate O’Connell não se davam bem e foram obrigados a entrar em um negócio juntos: um casamento.

Nate e Charlie se conhecem há uma década e não voltaram a se falar depois de todo esse tempo. Nos últimos dez anos, ele se tornou um empresário bem-sucedido, e ela, uma cientista de sucesso. Depois da morte de uma pessoa importante para os dois, eles se reúnem e descobrem que o testamento tem uma cláusula que precisam cumprir: casar e conviver durante um ano.

Agora Nate precisa aprender a perdoar o passado e dar uma chance para o futuro, e Charlie precisa perder o medo de se comprometer e dar uma chance ao amor.

(Este livro foi publicado anteriormente com o título "Para Sua Conveniência").

Dê uma espiadinha:

Prólogo
Charlie

Dez anos antes

Minha mãe tinha cifrões nos olhos enquanto me explicava que íamos conhecer "a oportunidade da vida dela". Era uma viagem curta, mas o carro que ela pegou emprestado com a tia Wanda parecia balançar com o peso extra das nossas caixas e malas.

A tal oportunidade atendia pelo nome de Robert O'Connell, um homem que ela conheceu enquanto servia mesas no "The Fame". Apesar do nome de boate de stripper, eles serviam mais café da manhã e comidas para quem estava de passagem. Minha mãe diz que Robert parece um Patrick Dempsey um pouco grisalho. Desconfio que ela tenha verificado se a roupa e o relógio dele eram caros antes de perceber se ele era bonito ou não. Se viram, se apaixonaram, vão morar juntos em sua grande casa, tudo em um espaço de três meses.

No último ano, vivemos em um estacionamento de trailers, e é por isso que toda a nossa vida cabe dentro do carro emprestado. Tivemos que vender muitas coisas enquanto mudávamos de casas, as vezes por falta de dinheiro, outras porque a antiga "grande oportunidade da vida dela" nos colocava para fora de casa depois do fim do relacionamento. De um jeito ou de outro, acabava sendo apenas minha mãe e eu na estrada. Tinha quinze anos, passado por quatro estados diferentes, algum tempo no hospital e mais alguns meses no serviço social.

Tiffany Smith ainda era uma mulher bonita apesar de tudo. Loira, magra e com aqueles olhos verdes lindos que pareciam prometer coisas - e que me enganaram muitas vezes, assim como os namorados que ela teve ao longo do caminho.

Não é que minha mãe fosse uma pessoa ruim, ela só era permanentemente amarga, como se sentisse saudades da época que não tinha preocupações. Às vezes percebia que estava distraída e parecia que estava desejando estar em qualquer outro lugar do que vivendo com uma filha adolescente em um trailer.

- Sem essas suas merdas de assuntos chatos, ok? Só sorria e não incomode. Prometi ao Bob que tinha uma filha caladinha e é isso que ele vai ter. Achar um peixe gordo como esse foi difícil - disse minha mãe com um olhar severo enquanto estacionávamos na frente de uma casa grande, daquelas de comercial de margarina.

Se objetos inanimados pudessem ter alguma reação, tenho certeza que as cercas brancas ao redor do casarão estariam rindo de nós duas naquele carro velho.

Saímos do carro e ficamos encarando a casa sem saber muito bem o que fazer. Minha mãe não escondia sua animação de estar ali, hipnotizada pelo "peixe gordo" que ela tinha capturado.

Comecei a tirar nossas coisas do carro porque Tia Wanda do estacionamento de trailer iria aparecer a qualquer momento para pegar o automóvel de volta e fuxicar a nova vida da minha mãe, e não estava disposta a aguentar a mulher mais do que dez minutos. A porta se abriu e saiu um homem que realmente parecia um Patrick Dempsey grisalho. Mamãe correu para ele e enroscou suas pernas em sua cintura.

- Que bom que vocês chegaram, estava preocupado com a demora - Patrick Dempsey grisalho beijou minha mãe e a colocou no chão.

Ele me deu uma boa olhada e tenho certeza que pensou em meu pai. Minha mãe era uma loira estonteante que tinha uma filha muito normal, pequena, magrela e com cabelos castanhos muito escuros, o que só podia significar que eu tinha puxado muito mais meu pai do que minha mãe. Para completar, eu usava roupa demais para o calor da Califórnia, ao contrário da minissaia e top da minha mãe, mas nunca abriria mão das minhas blusas de manga, nem mesmo com a temperatura alta.

- Você deve ser Charlotte, eu sou Robert - ele me estendeu a mão enquanto sorria.

- Sim, sou eu, mas pode me chamar de Charlie - sorri de volta apertando sua mão. Minha mãe pareceu não gostar de eu ter respondido e me deu um olhar zangado. Robert parecia confuso com a troca de olhares, e não comentou a respeito.

Não sei se ela me pediu para ser invisível com medo do que Robert poderia fazer ou com medo de perder a nova posição dela como dona daquele casarão. O último namorado da minha mãe tentou me tocar enquanto minha ela estava no trabalho. Ela faria turno dobrado por causa de um feriado, mas acabou voltando cedo para casa. Acordei com ele em cima de mim, bem a tempo de ver minha mãe o acertando com uma vassoura. A briga foi feia e ele saiu batendo a porta. Jogamos nossas coisas na antiga caminhonete dela e fomos embora. Semanas depois, a caminhonete foi vendida para pagar nossa estadia no estacionamento.

- Vamos organizar suas coisas e escolher um quarto para você. No segundo andar tem três cômodos disponíveis. O do fim do corredor, à esquerda, é de meu sobrinho que morava comigo e que ainda aparece aqui de vez enquanto. Na outra ponta, à direita é o meu e da sua mãe. Escolha qualquer um dos dois do meio, ok? – Disse Robert.

Escolhi o mais longe do quarto de Robert e minha mãe porque ela podia ser uma pessoa bem "vocal" quando queria seduzir alguém, e já estava de saco cheio de ouvi-la fazendo sexo enquanto morávamos em espaços pequenos. Uma casa grande pode ter suas vantagens.

O quarto era enorme e me joguei na cama de casal no centro do cômodo sem me importar com as caixas da mudança me esperando no andar de baixo. Queria aproveitar essas coisas como ter um quarto só meu e um banheiro maior que o nosso trailer, mas tinha medo de que a oportunidade de ouro da minha mãe não fosse tão brilhante assim.

***

Apesar da casa gigante de Robert, ela ficava relativamente perto da nossa casa antiga, com "The Fame" no meio do caminho, o que significava que também era perto do escritório de Robert, no centro da cidade. Minha escola também ficava lá, o que facilitou minha ida até lá nesses últimos dias antes das férias. Tinha 15 anos e estava no último ano da escola, mas já tinha me acostumado a ser a "esquisita que ninguém fala". Sendo a pessoa menos popular, era praticamente invisível, entrava e saia das aulas sem ser notada. Deveria ter aproveitado meu grande banheiro em vez de ir as aulas, já que estar ali parecia ser muito diferente de não estar.

Depois que o verão acabasse, seria oficialmente uma desempregada, uma ironia já que minha mãe tinha passado o último ano insistindo para eu conseguir um emprego. Tentei conseguir coisas de meio-período, mas ninguém estava disposto a dar um emprego para uma garota de 15 anos.

Eu tinha mais duas semanas de aula, e pegava caronas regulares com Robert. Ele era um homem fácil de se viver, era bonito e simpático, e eu não entendia bem como ele se apaixonou pela minha mãe. Apesar de linda, eles eram diferentes como o dia e a noite. Enquanto ele era tranquilo e passava os dias calmamente em seu escritório de casa ou no trabalho, minha mãe saia para fazer compras como louca, aproveitando a chance de ficar o dia inteiro sem fazer nada desde que virou uma adulta. Todo dia ela tinha coisas novas para me mostrar, como se tivesse uma pressa louca de gastar o dinheiro de Robert antes que ele percebesse o que ela estava fazendo.

Eu passava horas dentro do meu quarto, estudava, lia meus livros, e aparecia apenas para jantar com os dois. Era tudo muito constrangedor porque minha mãe fingia ser agradável e maternal, coisa que ela nunca foi nos meus quinze anos de vida. O fingimento deu resultado, já que assim que ela chegou aqui, eles foram ao cartório, e dias depois estavam legalmente casados.

- Você estuda bastante, tentando conseguir pontos extras para o currículo da faculdade? - Perguntou Robert certa noite, curioso depois de eu responder pela milésima vez que ia direto para o meu quarto estudar e por isso só aparecia nas refeições.

- Não vou para a faculdade agora - Não consegui esconder meu desanimo. Eu queria muito, mas sabia que agora não conseguiria.

- Mas você só termina a escola em dois anos, tem muito para decidir ainda.

- Na verdade não, querido - minha mãe interrompeu com aquele sorriso falso assustador - ela é uma espécie de gênio. Já está no último ano da escola.

Robert me olhou admirado e estava curiosa sobre porque minha mãe dar essa informação que ela pediu para não falar quando chegamos nessa casa, os tais "assuntos chatos" que não interessavam. Agora que não precisávamos mais de dinheiro, tinha certeza que ela queria que me emancipasse e fosse embora. Eu era um estorvo para a vida de madame sem preocupações que ela queria levar.

O assunto morreu naquele dia, mas nos seguintes Robert apareceu com formulários de inscrições e ideias de curso. De acordo com ele, uma pessoa que termina o ensino médio aos 15 anos claramente é superdotada e precisa de ajuda para se desenvolver.

Na verdade, era inteligente mas consegui a indulgência dos professores. Nos mudávamos constantemente, eu era a menina esperta que sofria bullying, e se os professores pudessem evitar isso, eles faziam - mesmo que isso significasse que pulasse alguns anos porque era inteligente demais para conviver com outros adolescentes da minha idade.

O bullying não era sempre por ser pobre ou com QI acima da média, que também aconteciam, mas em número menor. O problema era meu braço.

Eu tinha sete anos quando aconteceu. Minha mãe saiu e me deixou sozinha em casa, como ela sempre fazia. Me deixava com um celular pré-pago "caso você precisasse de ajuda", alguma comida em uma bancada e minha boa sorte. Um dia ela não funcionou, uma lâmpada pegou fogo e o pequeno apartamento foi tomado pelas chamas. Apesar de ter sete anos, sabia que tinha que fazer alguma coisa em vez de ficar assustada. Chamei os bombeiros pelo telefone e tentei sair, mas o fogo se espalhou rápido. Sai ilesa, mas com o braço direito em carne viva e uma perna quebrada pela queda da janela do segundo andar, a única rota de escape que achei.

Passei um mês no hospital e fiquei com cicatrizes. Precisava de cuidados especiais e minha mãe não tinha essa capacidade de acordo com o serviço social. Ela me conseguiu de volta um ano depois, e só entendi que ela fez esse esforço com medo de ser presa por ter me abandonado em uma casa em chamas.

Com grande parte do meu antebraço cheio de cicatrizes e pele repuxada, ia a todos lugares com camisas de manga longa, mas nunca escapava da aula de educação física. Sempre que alguém via, me chamava de apelidos como Frankenstein. Odiava principalmente o período natalino, onde todos aqueles filmes sobre Jesus Cristo lembravam as pessoas o termo "leprosa".

Eu dava pena aos professores e foi assim que consegui pular tantos anos rapidamente. Minha inteligência só ajudou.

***

 Eles tinham começado a discutir, mas apesar de uma rachadura e outra na máscara, minha mãe conseguia se manter no papel de pessoa agradável semanas depois da cerimônia de casamento. Acho que enquanto tivesse dinheiro para gastar, ela se sentia feliz em atuar.

Com o tempo, comecei a gostar de Robert e ele parecia genuinamente interessando em como eu ia na escola e se tinha decidido ou não entrar na faculdade. Todo dia depois do jantar nós compartilhávamos a biblioteca, no início apenas para dividir um livro e depois para aulas de xadrez. O jogo era o hobbie favorito dele com o sobrinho e quando começou a me ensinar, disse que era um favor que fazia a ele para não deixar suas habilidades "enferrujarem".

Com o final das aulas, mantive minha rotina de ficar no quarto - na maioria das vezes analisando a tonelada de material que Robert me conseguiu e tentando descobrir como conseguir uma bolsa de estudos em menos de três meses. Depois, descia para o jantar, e em seguida ia para a biblioteca. Fazíamos isso toda a noite com tanta concentração que não percebi a porta abrir certa vez. Ouvi uma voz profunda e brincalhona:

- Me traindo na mesa de xadrez?

Virei assustada para a entrada da sala e perdi o raciocínio do jogo. Reconheci pelas fotos que era o sobrinho de Robert, mas nenhuma imagem dava noção sobre como Nathan era bonito. Deve ser algo com a água dessa casa ou uma genética muito boa, mas se Robert parecia o Patrick Dempsey grisalho, o sobrinho era uma versão morena do Liam Hemsworth.

- Meu parceiro de jogo foi para faculdade e vai realmente implicar quando acho uma outra a altura? - Disse Robert enquanto levantava e abraçava Nate. Continuei ali sentada observando a camaradagem entre os dois.

- Sim, vai. Ele gosta de ser o único a ter um bom jogo com você.

- Pois essa mocinha é uma ótima aprendiz - disse Robert se aproximando de mim e tocando em meu ombro -  acho que vocês dois deveriam jogar. Com sorte o jogo acaba antes de terminar suas férias da faculdade. Ela é uma oponente difícil.

Eles riram e eu parecia parte daquela unidade familiar. Uma família pela primeira vez na minha vida. Se precisasse implorar para ser considerada uma parente, eu imploraria, nunca tive nada parecido. Droga, queria rir também.

Enquanto olhava essa troca fraterna com inveja, Liam Hemsworth moreno me encarou e sorriu.

- Sou Nate, você é Charlotte, certo? - Olhos azuis claros com um ar risonho me encararam e passei a acreditar em amor à primeira vista. Merda, ia passar vergonha morando no mesmo teto que Nate.

- Sim, e você é o sobrinho, né? - Parecia brusca, mas formar essas palavras foram muito difíceis para o patê de cérebro hipnotizado por Liam Hemsworth moreno.

- Me sinto como um mafioso ao ser chamado de "o sobrinho", mas sou eu mesmo. Estou cansado para um jogo agora, mas você não vai escapar de mim, ok? Vou passar as férias aqui e uma hora vai ter que se preparar para a surra que vou te dar no xadrez - ele disse para mim e depois virou para Robert - Estou cansado, dirigi o dia todo. Amanhã falo melhor com você, tio.

Ele saiu da biblioteca e acompanhei com o olhar. Merda, tomara que Robert não tenha percebido.

- Onde paramos?

- Era minha vez - não faço ideia se era ou não, mas eu tinha que falar alguma coisa.
- Charlotte então, heim...

- O quê?

- Você não corrigiu Nate, não pediu para chamar de Charlie.

- É? Não percebi.

- Eu gosto de Charlotte, é um nome bonito.

Mas eu não sou uma pessoa bonita, quis responder. Eu era a Charlie, não a Charlotte. Era uma rebelião idiota, mas foi o jeito de ter uma coisa escolhida por mim, não pela minha mãe, o hospital, os professores, o serviço social.

- Eu não gosto, acho muito pomposo.

- Você é um pouco pomposa senhorita inteligente.

- Mas eu sou Charlie pomposa, não Charlotte.

- Ok Charlie pomposa, agora jogue e me hipnotize com sua inteligência.

***

No dia seguinte, acordei e percebi que minha mãe tinha ido a mais uma expedição de compras. Já passava das 9h, o que significava que Robert tinha ido ao escritório. Nas férias, Nate costumava ajudar o tio, o que significava que eu estava sozinha em casa.

Decidi levar meus formulários para a ilha da cozinha, para analisá-los enquanto tomava café. Estava um pouco obcecada por eles, principalmente depois de perceber que talvez eu pudesse fazer a diferença sobre minha infância. Cada vez mais, ia em direção a cursos biomédicos, mas com o meu prazo correndo, precisava ser certeira.

- O que é isso tudo? Você já vai para a faculdade?

Nate estava em casa depois de tudo.

- Sim, eu quero tentar para o próximo semestre.

- E você está vendo isso só agora? - Disse ele se movimentando pela cozinha enquanto preparava seu café. Ele era lindo com a cara amassada. Ok, atenção, isso é uma conversa.

- Eu não queria, mas seu tio pode ser muito convincente.

- Ele é - ele sorriu - você é superdotada ou algo assim, Charlotte?

- Algo assim - eu ri - e pode me chamar de Charlie. Você não vai trabalhar com seu tio hoje?

- Quer me colocar para fora da minha casa, é? Planejando uma festa na piscina?

- Eu... - Ele riu e piscou.

- Vou agora. Estava cansado demais ontem. Você está com problema para decidir?

- Eu tenho pouco tempo, e não sei bem o que fazer. São muitas opções.

- Como você se vê dentro de dez anos? - Ele disse enquanto comia muffins que estavam na geladeira.

- Eu não sei o que vou comer dentro de dez minutos, é uma pergunta difícil.

- Pensa nisso e você pode ter uma pista. Onde você quer fazer a diferença? Escritório? Pesquisa? Quer colocar a mão na massa? Isso pode dar uma pista - ele disse pegando sua xícara - Agora eu e meu café vamos ficar prontos e sair. E eu não esqueci do nosso jogo de hoje à noite, viu?

Ele piscou de novo, eu suspirei mais um pouco, e depois pensei no que ele falou. Onde eu poderia fazer a diferença?

Horas depois, sentamos todos a mesa e Nate encantou com seu charme. Minha mãe ria muito e pelo modo que ajeitava seu decote, sentia falta de flertar. Estava com pena de Robert ter que acompanhar isso. Decidimos encerrar o jantar depois da insistência de minha mãe em comer mais do delicioso pudim que ela fez, e fomos para a biblioteca.

Não disse uma palavra durante a refeição e não falaria muito durante aquele jogo. Para minha vergonha foi ridiculamente fácil de me vencer, porque estava distraída entre encarar ele descaradamente e o medo de fazer algo errado e me envergonhar. Depois disso, murmurei um "boa noite" e subi para o meu quarto.

Os dias se passaram desse jeito, quando Nate não estava no trabalho temporário, o seguia por todo o lado como um cachorro. Ele me ensinou a jogar cartas - e a roubar durante o jogo - andar de bicicleta e me forçou a pegar algum sol. Ele ria de mim cada vez que eu ia para a piscina de biquíni e camiseta longa por cima, como se eu fosse um bicho raro que ele precisava ensinar a se comportar.

- Se você quer usar biquíni, tem que tirar a camisa também, Charlie, não adianta deixar as pernas bronzeadas de fora e ficar com os braços brancos - ele parecia amigável e distraído, como se tentasse entender o que estava acontecendo.

Eu não queria que ele me olhasse diferente pelas cicatrizes. Então fingi que não ouvia, não era como se conseguisse falar mais de uma frase simples com Nate de calção a meu lado.

Nate aproveitou minha distração, me pegou nos braços e me jogou na piscina. O contato da água gelada naquele calor terrível da Califórnia me abraçou, e eu estava mais confortável do que estive desde que começou o verão.

- Agora vai ter que tirar a camisa, Charlie. Está molhada e também não importa muito, ela é transparente - disse Nate, que estava na minha lateral. Virei em direção a voz.

Olhei para baixo e vi que definitivamente a camisa cinza de blusa longa que eu usava estava transparente. Como eu não iria tirar, não coloquei a parte de cima do biquini, era a versão da garota da camiseta molhada com seios de tamanho de limões. Nate pareceu reparar no mesmo momento que eu e o sorriso sumiu do rosto dele, era constrangimento e mais alguma coisa, mas me negava a acreditar que ele iria ficar atraído por uma menina de 15 anos de corpo reto.

- Você pode se virar, por favor? Vou sair da piscina, pegar uma toalha e ir para o meu quarto me trocar - Nate concordou com a cabeça e sai da piscina.

***

Nate

Eu me sentia um aliciador de menores. Tinha 20 anos, estava na faculdade, pronto para lançar meu primeiro negócio e uma garota de 15 anos me deixava nervoso. Tudo bem que era uma garota muito inteligente e madura para seus 15 anos, mas ainda era uma adolescente.

Ela era parte da nova grande família feliz de tio Robert, apesar de achar que tudo aconteceu de forma muito rápida. Tentei ser aberto à Charlie e Tifanny mesmo desconfiando de que as duas não estavam mais do que usando meu tio. Ser simpático com Charlie era fácil, ela era legal. Tinha vontade de aprender coisas novas e não ficava falando como um papagaio - na verdade parecia que pensava muito antes de falar qualquer coisa e preferia assim.

Tinha acontecido algo com ela no passado. Dava para perceber pela sua seriedade e o jeito quase protetor com seu próprio corpo. Desejava muito que nenhum dos ex-namorados de Tiffany tenham tentado nada com ela, Charlie precisava sorrir mais e coisas assim são difíceis de superar.

Queria alegrá-la mesmo que significasse aguentar a paixonite que ela parecia sentir por mim. Eu a levava para todos os cantos, ensinei a jogar cartas e a andar de bicicleta - e que tipo de infância ela teve que não aprendeu isso antes?

Então aconteceu o incidente da piscina.

Me sentia descontraído ao redor dela, fazendo brincadeiras e parecendo alegre demais perto daquela garota taciturna. Então ela apareceu de biquini e uma das suas camisas de manga longa e achei que seria divertido jogá-la na piscina.

Eu brinquei sobre a maldita camisa e Charlie virou para mim molhada e transparente. Senti meu pau endurecer na mesma hora enquanto encarava os peitos erguidos da garota. Eu era um doente que sentia desejo sexual por uma menina de 15 anos.

Ela me pediu para virar de costas e deixá-la ir da piscina sem meus olhos a acompanhando. Não sei se entendeu o que estava acontecendo, mas para o bem de nós dois, foi ótimo ela sair do meu campo de visão.

***

Se Charlie era fácil de lidar, Tiffany era outro tipo de pessoa. A via me encarando, como se esperasse que eu correspondesse aquele olhar. Ouvia ela e meu tio brigarem e sabia que as coisas não iam durar muito tempo.

Sai da piscina indo em direção à casa. Queria trocar de roupa no meu quarto e fingir que isso não tinha acontecido. Não estava molhado porque minha ideia de mergulhar depois de atirar Charlie na água ficou frustrada pela visão dos peitos dela. Antes de entrar no meu quarto, uma voz me chamou.
- Precisando de ajuda com alguma coisa?

Tifanny estava no meio do corredor e não entendi até acompanhar o olhar dela.

Ela estava falando da minha ereção.

A esposa do meu tio queria "me ajudar" com a minha ereção.

Tifanny estava com uma camisola extremamente curta e esperava minha resposta ao convite. Fazia uma cara esquisita que ela devia achar que era sensual e parecia disposta a andar até mim para conseguir sua resposta. Não dei tempo para isso e fechei a porta.

***

Esperei até a hora do jantar e depois de uma refeição constrangedora em que Charlie mal me encarava pelo que aconteceu na piscina, Tifanny me encava demais pelo momento no corredor e meu tio parecia distraído demais para encarar alguém.

Sai da mesa e fui em direção a biblioteca. Meu plano era esperar tio Robert me seguir e discutir seriamente sobre a família que ele tinha arranjado.

Ele e Tifanny brigavam muito, ela parecia gastar demais, sem contar suas "tentativas" de sedução. Talvez Charlie soubesse o que estava fazendo na piscina e também participasse do plano. Mãe e filha mergulhadas em uma mina de ouro enquanto tentam pescar o membro mais novo do clã - ou distrair ele o suficiente para não reparar como raspam a conta bancária de Robert.

Meu tio entrou na biblioteca, foi até o aparador e encheu um copo com Whisky. Depois, sentou em sua cadeira de couro perto da janela. Uma mesa de carvalho completava a mobília onde agora Robert descansava o copo. Fui em direção à porta, a tranquei e sentei em frente a ele.

- Elas estão te enganando.

- Tifanny está, eu sei.

- As duas. A filha daquela mulher também está te usando. Sem você ela não iria a faculdade...

- A menina merece isso, não a coloque no meio dessa história - ele suspirou - e sobre Tifanny... é tudo muito complicado. Achei que nos amávamos, mas ela gosta mesmo é do rombo que faz nos cartões de crédito.

- Precisa se divorciar. Ela foi um erro, e você demorou menos de um ano para reparar isso.
- É complicado...

- É só isso que você vai dizer?

- Para você, sim. É minha vida, eu sei que você quer me proteger, mas nunca tive isso. Quero que você respeite minha decisão.

- Ela tentou me seduzir, tio.

- Conseguiu? - Olhei completamente horrorizado para meu tio que parecia derrotado nesse momento.

- Claro que não!

- Ela conseguiu com outros. Preciso fazer algo, eu só... - ele suspirou de novo e encarou o copo - Me deixe sozinho, pode ser? Vou ficar bem.

Concordei com a cabeça apesar de não querer. Meu tio ainda era o homem que me criou nos últimos anos, logo depois do acidente.

Quando cheguei nessa casa, há sete anos, meu tio era esquisito, calado e não sabia bem o que fazer com um menino adolescente. Com o tempo, ele virou meu amigo, um parceiro que aprendi a amar e me fez ter paz depois da morte dos meus pais. Apesar de muito inteligente, ele guardava um ar de inocência que parecia ter sido tocado por aquela mulher e a manipulação dela e da filha.

O homem que o fez voltar a rir já não ria mais e isso era algo que não podia perdoar, mas agora não tinha muito o que fazer aqui. Tifanny ia continuar seu plano de "sedução" agora que se sentiu mais segura para agir, e Charlie... ela me confundia. Parecia tímida, meiga e eu não saiba se era tudo fingimento ou não.

***


Charlie

Seis meses depois, minha vida era completamente diferente. Fiz 16 anos logo depois das férias de verão, bem a tempo de começar meu curso na faculdade. Robert tinha me arranjado um carro e eu passava o dia nas aulas e pesquisas acadêmicas, voltando para casa apenas a noite.

Enquanto isso, minha mãe e Robert brigavam mais do que se amavam, e Nate começou a odiar todos os membros da família Smith, o que me incluía como "a filha daquela mulher que também está te usando".

Eu ouvi isso meses atrás, quando ele discutia com Robert. Ia entrar na biblioteca e percebi que a porta estava trancada. Antes de voltar para o meu quarto ouvia as palavras e isso me quebrou. Ele acreditava que eu usei seu tio para conseguir ir a faculdade, mas eu tinha uma bolsa de estudos e o apoio de Robert, o que me importava mais do que alguém para me financiar.

Depois daquela noite, Nate foi embora. Em vez de passar as férias de verão aqui, foi para a cidade, onde alugou um quarto, e via seu tio na cidade uma vez por semana até voltar para a faculdade. Os dias que passamos sob o mesmo teto foram idílicos e sabia que tinham acabado. Minha paixonite me odiava, e era hora de superar.

Algumas noites depois, ouvi minha mãe gritando, coisas sendo jogadas e fiquei com medo por ela e as coisas que podiam acontecer. Mas eram só gritos dela e um silêncio esquisito como se Robert, dessa vez e diferente das outras vezes, tivesse desistido em vez de brigar.

Minutos depois ela entrou no meu quarto com algumas malas e me senti egoísta. Não queria abrir mão da faculdade, das noites de xadrez e das conversas com Robert e acho que minha mãe sabia disso tanto quanto eu.

- Eu vou embora, mas não tenho porque te levar, você parece gostar daqui e Robert concordou. Meu tempo aqui acabou, mas não o seu. Mantenha sua porta trancada se ele ou o sobrinho quiserem cobrar esse favor, ok? - Os olhos dela pareciam mesmo preocupados, apesar de tudo, ela continuava sendo minha mãe.

- Você quer que eu vá com você? Você pode entrar em problemas como da outra vez, mãe - eu parecia pouco convincente, nos duas sabíamos, mas precisava perguntar.

- Você fica, já disse. Robert não vai me denunciar porque ele acha que não sou boa o suficiente para ser sua mãe. Além da pensão do divórcio, ele me deu dinheiro para me manter longe e pensando bem, acho que ele fez o certo. Ele vai ser seu guardião qualquer coisa, ele vai te explicar - ela disse com um movimento com a mão encerrando o assunto.

- Para onde você vai?

- Você se importa? - Ela suspirou e pareceu se arrepender do que disse. Se aproximou e colocou as duas mãos em meu rosto, quase encostando sua testa na minha - você merece grandes coisas, querida, e sem saber, te dei uma chance de ouro. Se agarre a ela que eu vou atrás de outra "oportunidade". Vamos ficar bem - ela riu irônica sobre as palavras dela no primeiro dia, me deu um abraço desajeitado e foi embora.

No dia seguinte Robert estava abatido e com seu jeito amável me explicou que eles decidiram se separar, mas que isso não atrapalhava nossa amizade. Ele seria meu guardião legal e eu poderia ficar o quanto quisesse.

Vivemos os anos seguintes felizes em nossas partidas de xadrez apesar de Nate ainda achar que eu era uma aproveitadora. Torcia para que ele um dia percebesse que eu só gostava verdadeiramente do tio dele, que Robert me deu a chance e a perspectiva de uma vida que não tinha me atrevido a sonhar até então.